Seja Bem-Vindo

Seja Bem-Vindo

quinta-feira, 28 de maio de 2015



Limite do outono

Acho que foi o vento
que fez a curva
sobre o telhado da varanda
e no varal

entrelaçou as roupas
bateu venezianas
folhas varridas
e abandonadas pela grama

Abrupto
entrou janela adentro
rasgos de frio
um cheiro

imensidão de pensamentos

furtiva voz
sussurro
quase lamento

Fragmentado sentimento

Acho que foi o vento


Maio, 28 de 2015
Fotografia, Sidarta

sábado, 23 de agosto de 2014

Tênue





As cores desvanecem
quase que num piscar
de olhos

o chão duro frio
transpassa
a sola do calçado

palato de real
trava
amarga as laterais da língua

no céu
o cinza original
de fundo
é o que fica

Agosto, 23 de 2014
Fotografia, Sidarta


sábado, 7 de junho de 2014

De névoa e chuva




Um dia inteiro e mais
a chuva da noite anterior
deixa desejo de céu azul

A tarde já se escoa calçada afora
no itinerário da chuva
em invisível lamento

e a noite vestida de cinza
se anuncia
acende as luzes da cidade
quer cessar silêncios
mas apenas os divide
entre os limites da janela
e das ruas

O cinza fosco do céu
prenuncia mais chuva
ainda mais um dia

Um pouco menos de ti
tecido em névoa e chuva
a cada dia


Junho, 07 de 2014
 Fotografia, Sidarta




segunda-feira, 26 de maio de 2014

Para Sophia, minha tricolor amiga





[... e assim, antes de ir ensina,
 que é com dignidade
 que a gente deve 
 se despedir  da vida]

Os dias foram passando
impregnados
de silêncio
e despedidas.

Estava pronta
e com peculiar serenidade
quis apressar o passo,
não viu o sol nascer.

Mas ao entardecer, por certo
se não neste quintal,
outro horizonte
se tingirá de cores
a imitar tua pelagem tricolor.


Maio, 26 de 2014
Fotografia, marlene

domingo, 20 de abril de 2014

Breve espaço




Depois
fecharei então
cada janela
uma a uma cada veneziana
e  portas
cerrarei

Lá fora
o limo abrigará
todas as  pedras
amarelecidas sobrepostas
imensidão de folhas
cairão

até que mais nenhuma reste
e indefinidas juntem-se
enrugadas
ao amarelo do tempo

Nenhum rastro
qualquer resquício
nos cômodos abandonados
da casa
(ficarão?)

Também envelhecerão
e vão esmaecer
por certo
entre  silêncio
e solidão

Abril, 20 de 2014
Fotografia, Sidarta

sábado, 22 de março de 2014

O nome da flor





Veio a noite
com trovoadas e vento,
depois granizo.

Encontra
a manhã,
entrelaçados corações

espalhados
pelo chão.


Março, 16 de 2014
Fotografia do quintal!

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Paciência – há que se ter





Assim
feito passe de mágica
mas sem qualquer obra de magia
o universo
propicia
alguns arranjos

Poda alguma aresta
promove encontros

As coisas se resolvem
um dia
ou outro


Dezembro, 22 de 2013
Fotografia, Sidarta

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Deste calor que embota




O calor
interminável
deste verão
tem me deixado assim

fadiga
cansaço

Ficar
em pedaços
Corar a pele
em bronze
sem sair
do ar refrigerado
do quarto

Mirar o céu
sol a pino
nenhuma nuvem ou vento
não chove
faz tempo

Tudo extenua
excesso de luz
não me transpassa

Esbarra
na tosca luminosidade
que me habita

Rabisco
algumas frases
que risco

Nenhum poema
orbita


Fevereiro, 09 de 2014
Fotografia, Sidarta 

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Tarde em janeiro





A tarde se despede
um pássaro tardio
apressa o voo

Acinzentada
é a face da noite 
que se anuncia

e talvez traga
alguma chuva
em sua companhia

Janeiro, 10 de 2014
Fotografia, Sidarta


domingo, 22 de dezembro de 2013

Por ora





Pássaros
e tantos novos ninhos
flores que desabrocham
jabuticabas amoras
Fico a refazer mudas
retirar folhas secas

até alguma pedra
de uma ou outra
forma
nem percebera

Perco a noção do tempo

O vento
a trazer tantas folhas
sopra meu rosto
convida-me a todo instante

Por ora
prefiro
as lides do quintal
à poesia


Dezembro, 22 de 2013
Fotografia, Marlene

domingo, 1 de dezembro de 2013

Do pássaro azul





Nenhum desejo especial
para este dia
sábado
com chuva fina
senão
juntar-se ao silêncio
blue

asas abertas
do pássaro no chão
sob a janela
inerte
voo interrompido

A vida flui
se esvai
feito movimento
do vento

Meras palavras
tentativa
de consolidar
seu fluxo


Novembro, 30 de 2013
Fotografia, Sidarta

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

De vento



[Desafio Poético com imagem]

Pé de vento
abrupto
bate as venezianas
invade
vazios
cômodos da casa
gira desordenado
o cata-vento

Solta as roupas do varal
dá asas ao lençol
brinca
na leveza da saia da menina
na rua que passa

Desgrenhados ficam
os cabelos
pensamento
    cabeça
    de vento


Novembro, 07 de 2013
Imagem,  Usha Tsonkova  

domingo, 3 de novembro de 2013

Pedra solta



Sob os olhos
desfilam
sucessão de superficialidades
comuns
pela repetição
Algumas se perpetuam

Pedras se encaixam
adaptadas pela proximidade
solidificada
do limo

Inadequadas
ao sabor das intempéries
vagueiam uma ou outra

de imperceptível limo
incrustado
nas fissuras



Novembro, 03 de 2013
Fotografia, Marlene Edir Severino

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Esquálido



Nesse dia
cinza
esquálido que finda
em silenciosa agonia

tanto ainda por dizer

Tantas palavras que param
petrificadas
perdem-se
na memória
detalhes pequenos gestos
como se estivessem
ainda
por acontecer Aqui
nesse mundo tão ínfimo
de conluio com as pedras

e ainda consigo
ficar
meio perdida

Acumulam-se
tantas palavras

mas fica
presente
a vontade de tentar simplificar
o ato
de pelo menos tentar
dizer

palavras
transcritas no gesto
de fechar venezianas
apagar as luzes
na repetição

da noite

Outubro, 17 de 2013
Fotografia, Sidarta

sábado, 28 de setembro de 2013

Um tom de sépia





A tarde finda
pátina
vibram todos os sinos de vento
e um esqueleto de folha flutua no ar
em desalento,

bate a janela.
Azinhavre,
ferrugem.
A dobradiça emperra.

Veloz,
o vento deixa outra folha
inerte no marrom da grama.

A tarde escorre,
nem dia é mais.

Sépia na paleta.


Janeiro, 25 de 2012
Aquarela de Marlene Edir Severino

terça-feira, 17 de setembro de 2013

Coisas pequenas


 A André Bessa
[Em homenagem a nossa afinidade poética - letras e tintas, as nossas sincronicidades]                                                


Porque a vista turva
no lusco-fusco

e nada mais desejo
neste dia
que se vai

Conservo
coisas minúsculas
que nos dissemos
e que nos cercam

Quase invisível este instante
quase nada
pouco vento

Fico
com as cores da tua pintura
punhado de branco no meu muro
tentar estar presente
um pouco pelo menos neste instante
em que vou deixando-me
ir aos poucos
nas poucas
pequenas coisas

Setembro, 17 de 2013
Fotografia, Sidarta

sábado, 31 de agosto de 2013

Sobre aquela estrela





Já quase noite
logo desponta
a prematura estrela
a querer dar à noite rumo

Virão sem demora outras
e aquela errante
estrela que não distingo
nessa tanta distância se perdeu

A casa cercada de arames
emudeceu tua voz
Sem que te veja passas

não prendo tua imagem
tampouco posso
alongar este dia que se vai


Agosto, 31 de 2013

Fotografia, Sidarta 

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Cardo






Sol peneirado aparece
depois da chuva
mas já é final de tarde

Para ouvir o silêncio
que pairou
depois da última palavra
um muro

Alongado

silêncio
que se perdeu no tempo

Deserto

árido vento
cardo


Agosto, 14 de 2013
Fotografia, Sidarta




terça-feira, 9 de julho de 2013

Canção que fala de pássaros (Reeditado)






Improviso
E chegas sem aviso
entre papéis
frases soltas
abismos
A quilômetros de distância

Moro no país da solidão

Insone
escrevo versos
apodrecidos
quase secretos
visualizo teu rosto

agora teu corpo

e novamente esqueço
o café inacabado na xícara
em algum cômodo da casa
esquecida de mim
Ouvi a canção
que me fez te lembrar

Adormeci em teus braços
entre conchas e espuma do mar

Despertei

[Junho, 6 de 2011]
Editado em 2011 neste Blog
Fotografia, Sidarta

domingo, 26 de maio de 2013

Sinal de Fumo





Procuro
um pouco de calor
do sol
réstia de luz
daquela estrela
ou resquício que deixou no céu

Relâmpago
algum invisível poema
sinal de fumo
vento
um fragmento
qualquer intento
que seja
chave
que me desperte
abra de novo a porta
ou qualquer fresta
que o vento entre

e traga novamente
o cheiro do quintal

Setembro, 25 de2012
Fotografia, Sidarta