Seja Bem-Vindo

Seja Bem-Vindo

quinta-feira, 29 de março de 2012

Da Transparência da Cigarra Seca





Áspera estrada
de aquietar ansiedades:
nenhum desvio, qualquer atalho há
e há pouco encanto para descrever

agora, esta hora,
e aplacar olhos incendiados
da noite insone.

A beleza distante da duna
pega carona no vento,
pura areia,
lacrimeja.
Vagueia o horizonte,

vago olhar,
cigarra seca na pedra
sem limo,
transparências
de secos avessos,

casulo solto.

Pensamento confuso,
difusa palavra:
meras letras
pretas.
Emudece

em cinza.


(Imagem: fotografia de Marlene Edir Severino) 
Março, 29 de 2012

segunda-feira, 19 de março de 2012

Azul Traço




Anônima transeunte
nem marcas deixam
meus passos
pela rua
e no caminho ouço
eco de passadas
ocas
nuas no chão

Respiro silêncio
quebrado
pela minha pulsação

Nas ruas o muro alto
espreita
encontra-me sua sombra
sombrio vagar

Transporto-me neste poema
de azul traço engarrafado
atirado ao mar

( Imagem: Praia Brava, fotografia de Marlene Edir)
Publicado no Céu de Abril, em abril, 14 de 2011

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Nenhum Vento a Soprar Nuvens





Procuro ínfimos símbolos,
qualquer prenúncio
no tempo,
também o universo conspira,

nenhum vento sopra
nuvens,
nem folha cai.
Busco

em epigramas escusos
ou em qualquer epígrafe
algum indício
nos poemas teus.

Olho
o fundo da xícara,
marca deixada

do café -
obscuro sinal
a dizer-me o que não sei

traduzir.


(Imagem: Fotografia de Marlene Edir Severino)
Fevereiro, 23 de 2012

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Um Tom de Sépia




A tarde finda
pátina
vibram todos os sinos de vento
e um esqueleto de folha flutua no ar
em desalento,

bate a janela.
Azinhavre,
ferrugem.
A dobradiça emperra.

Veloz,
o vento deixa outra folha
inerte no marrom da grama.

A tarde escorre,
nem dia é mais.
Sépia na paleta.

sábado, 14 de janeiro de 2012

Estrela do Norte






A fruta sobre a mesa,
o ruído da água que ferve na chaleira
(não tolero cafeteira),
o cheiro do café exala

e o sol nascendo
tinge as nuvens a leste,
mas permanece ainda no céu
a estrela matutina.

E o norte?

Tão cedo assim
é curto o pensamento
e o dia é um enigma:
resta algum silêncio da noite,

a rua mal acorda
e o apelo do café coado
ordena que se sorva o instante!


(Fotografia de Marlene Edir Severino)
Janeiro, 14 de 2012